A Era Meiji, meu vô e eu. Ou, a imaginação sociológica e a vontade de chorar em museu de história.

Dia desses fui visitar o Museu da Província de Okinawa, aqui no centro de Naha. É um museu bem completo que mantém acervos da história natural do arquipélago, arqueologia, cultura, artes, além da peculiar e difícil história de Okinawa. Para quem não sabe (eu não sabia há até uns três anos atrás), o que hoje é a província japonesa de Okinawa já foi um reino soberano chamado Ryukyu (a gente não sabe quase nada sobre a história do mundo asiático, já que o que a gente chama de história do mundo é na verdade a história da Europa e dos Estados Unidos).

O fato é que o Reino de Ryukyu foi um importante entreposto comercial entre os séculos XV e XIX, por sua posição geográfica privilegiada entre a China, o Japão e o Sudeste Asiático. E por este contato intenso com diversas nações acabou desenvolvendo uma cultura muito peculiar inclusive com língua própria (o uchinaguchi – hoje quase morto em Okinawa mas ainda vivo na fala das minhas avós e de outros imigrantes no bairro do Imirim).

Bom, no museu me dei conta de que, misturando teoria do caos com a imaginação sociológica de Wright-Mills, o Impedor Meiji foi, em partes, responsável por eu ter nascido no Brasil. Quando o Japão anexou Okinawa, como uma de suas províncias em 1878 – no contexto da política imperialista da Era Meiji – proibiu o comércio do ex-reino de Ryukyu com a China, deflagrando uma crise econômica filha da puta por aqui. Foi talvez como conseqüência da crise, e também da demanda de mão-de-obra nas lavouras cafeeiras paulistas, que o senhor meu bisavô decidiu migrar para o Brasil com a família.
A idéia wrightmillsiana (rs) de imaginação sociológica permite entender eventos da vida pessoal dos indivíduos em sua relação com os acontecimentos históricos e configurações sociais. Dessa forma, evidencia como nossas vidas pessoais estão condicionadas por determinadas possibilidades e impossibilidades sociais construídas historicamente. O exemplo que ele dá é que quando uma pessoa está desempregada normalmente entende isso como um problema pessoal, sem perceber que se trata também de um problema social, identificável até por estatística, algo que transcende o individual.

Enfim, o que quero dizer é que aquele museu, ao contar a história de Okinawa, contou também a história de meus avós e bisavós. Falou sobre como foi possível o Odi sair aqui de Okinawa em 1932 e ir parar no outro lado do mundo, numa lavoura de café na cidade de Olímpia.

A vida é esquisita né.

Victor Kanashiro

4 Respostas to “A Era Meiji, meu vô e eu. Ou, a imaginação sociológica e a vontade de chorar em museu de história.”

  1. Hitoshi Takara Says:

    Bom, divagações a parte… Okinawa ou Ryukyu foi anexada por Meiji no final do séc.XIX, mas já estava sob influência japonesa desde meados do séc. XVII. Eu tinha na cabeça quando fui ai para Okinawa que os japoneses foram uns sacanas imperialistas que dominaram Ryukyu e que os chineses foram outros sacanas por não protegerem seus pequeno aliado. Quando eu visitei o museu municipal de Naha me explicaram que se não fosse a invasão de Satsuma muitas das tecnologias de Ryukyu não existiriam, por exemplo, o bingata. O que acontece é que antes todos os produtos manufaturados eram trazidos da China e não havia transferência de tecnologia, uma vez que a importação dava conta do recado. Quando Satsuma invadiu Okinawa essas tecnologias foram introduzidas no país. Quanto aos chineses, eles estavam com problemas internos na época de Satsuma, uma dinastia esta caindo e outra estava tomando o poder, a China até chiou (ou será xiou?) mas estava muito enfraquecida para enviar exércitos ou qualquer apoio para enfrentar Satsuma.

    • okinawabrasil Says:

      Pois é, a modernização às vezes é uma faca de dois ou vários gumes né? Pelo pouco que li até agora, esta “soberania” okinawana sempre dependeu dos tributos pagos à Satsuma e à China. Além disso, a anexação de Okinawa como província pelo Japão ocorreu, em partes, porque havia interesse de países imperialistas ocidentais (como França, Inglaterra e Estados Unidos) no arquipélgado. Certamente, se o Japão não tivesse “colonizado” Okinawa, outros países o tinham feito.
      De qualquer forma, o fato é que o imperialismo da era Meiji veio acompanhado de uma política de japonização da cultura okinawana.
      Mas é difícil julgar a história né.
      Hoje fiquei pensando o que teria acontecido com Okinawa se não tivesse virado Japão. Talvez fosse uma outra Coréia do Norte ou uma ilha pauperizada perdida no Pacífico. Não sei.

  2. Fausto Uehara Says:

    Bom se considerarmos todas as implicações históricas podemos dizer que se o Japão não anexasse Okinawa, o arquipelago não teria participado da segunda guerra e o Japão não teria cedido o território aos americanos, seria tudo muito diferente, culturalmente, socialmente e urbanisticamente.

  3. | A Era Meiji, meu vô e eu. Ou, a imaginação sociológica e a vontade de chorar em museu de história. Says:

    […] From Okinawa do Brasil […]

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