A ida (ou a volta?) e a teoria do eterno retorno

No balcão de check-in da Japan Airlines, no Aeroporto de Guarulhos, começou o Japão.
O aeroporto é um portal para o estrangeiro. Lembro-me de, quando criança (será que já virei adulto?), gostar de ficar por lá só para ouvir o burburinho em outra língua. Deve ser algo similar ao que era um porto nos séculos passados. Com a diferença de que um porto tem a concretude de se ver o mar que se tem que atravessar.
Após a chatice burocrática (e anti-terrorista) da migração e embarque, entrei naquele avião em meio a turistas, dekasseguis, viajantes, odiisans , obaasans e pessoas indo a Nova York (o avião faz escala por lá). Uma viagem de mais de 24h é daquelas que você entra calado e sai com um monte de amigos do avião. É difícil ficar tanto tempo calado ainda mais pra uma pessoa falante como eu.
Fileira 50, poltrona C – O destino (ou a moça da empresa aérea) me colocaram do lado de duas figuras interessantes: dois rostos asiáticos, um senhor de meia e uma moça da minha idade.
No começo achei que eram japoneses do Japão (nesse caso já poderia ir praticando meu japonês). Mas quando começaram a falar em português percebi que se tratava de um pré-julgamento. Os dois deviam ser pai e filha indo visitar a família na China. Mas eu continuava errado.
O senhor Tang é nascido em Shanghai e vive há 10 anos no bairro da Liberdade, onde vende produtos eletrônicos. Nesta ocasião, ia (como faz anualmente) passar o fim de ano com a família na China. Já a Karina é (como eu) neta de japoneses, recém graduada em Ciências Sociais (!) na Universidade Estadual de Londrina e ia (ou voltava?) pela primeira vez à terrinha dos ancestrais.
A gente formou tipo uma pequena e breve família durante aquela longa viagem. O senhor Tang tinha um português difícil, quase um dialeto sino-tupiniquim (aquele em que rua vila lua), e estampava um sorriso brilhante, com seus olhos pequeninos (como os meus), mas com cílios quase inexistentes. Falou de como gostava do Brasil e como tinha saudades também de Shanghai, espantou-se ao saber que mesmo sendo japoneses, Karina e eu falávamos mal e porcamente o japonês. Contou coisas sobre a milenar civilização chinesa e revelou opiniões controversas (sobretudo para dois jovens cientistas sociais) como, por exemplo, a idéia de jogar os bandidos do mundo lá na Sibéria (isso quando o avião estava passando lá por cima. Caramba, a Sibéria existe fora do “War” e deu até pra ver um pouquim de longe lá de cima).
Já Karina é daquele tipo de pessoa surpreendente. Ia rumo à cidade japonesa de Toyota (sim acho que tem a ver com a gigante dos automóveis), acerca de Nagoya, visitar uma tia. Falante (até mais que eu), falamos de “A a Z”. Sobre histórias de avós até a condição do intelectual na sociedade contemporânea, sobre como o senhor Tang é simpático até a psiquê dos nikkeis do Brasil, sobre questões de gênero a pessoais (será que deu pra separar?).
Enfim, contando, inventando e reinventando histórias e pensamentos, descobrimos uma coisa engraçada. Nossos avós vieram no mesmo ano de 1932 do Japão para o Brasil, provavelmente no mesmo navio, o Santos Maru, que cruzou meio mundo em 30 dias. E agora nós, íamos (ou voltávamos?) para o Japão pela primeira vez no mesmo avião, atravessando a outra metade em 30 horas. Verdade ou não, só sei que foi assim.
Já em solo japonês (pensei que íamos chorar, mas a Karina ficou com dor no tímpano e eu fiquei um pouco enjoado) nos despedimos do Senhor Tang que ainda enfrentaria mais uma boa jornada até Shanghai.
Na confusão das malas já não soube onde estava Karina. Não pude nem dar um abraço de boa viagem. Mas tem coisas que acontecem assim mesmo. Tem passagens que a gente acaba tendo que viver sozinho.
Mas não me preocupo, lembrei que secretamente continuo acreditando na teoria do eterno retorno. Ah, Karina e Senhor Tang, esqueci de falar: achei no fundo da mochila aquele livro que achei ter perdido no avião.

Victor Kanashiro

Uma resposta to “A ida (ou a volta?) e a teoria do eterno retorno”

  1. Danilo Havana Says:

    As vezes melhor que o destino é mesmo a viagem.
    Já conversamos sobre isso, mas a maneira como se faz a viagem muda a viagem.
    Que bom que teve sorte com seus colegas de avião.
    Na minha ultima grande viagem de avião tb tive a minha e cai ao lado de um camioneiro europeu …. o final vc conhece.
    Pensa como deve ter sido de barco a quase 100 atrás? Nossa …

    Força no hashi !

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