Primeira Epifania!

Dia 23 de Julho. Depois das imagens e reflexões da nossa reunião, não pude esperar muito para inaugurar minha palavra neste blog.

É verdade que é a primeira vez que escrevo em um, mas é certo que será um instrumento de documentação e reflexão importante neste nosso processo. Por isso, começarei com uma breve epifania.

Fazer um documentário como este é, para mim, um processo de auto-conhecimento. Em primeiro lugar, porque acredito que nosso passado mora dentro de nós e nos possibilita e condiciona percorrer os caminhos que “escolhemos” percorrer. Em segundo, porque o nosso presente está fortemente marcado pelo que fizeram os nossos antepassados.

Sei que é um pensamento um pouco besta e um pouco já batido pela Teoria do Caos. Mas às vezes fico imaginando: e se meu bisavô e sua família (e isso já incluia o meu vô) tivessem decidido ir para a Jamaica em vez de para o Brasil?

Bom, se isto tivesse acontecido, meu avô não teria conhecido a minha avó e nem gerado o meu pai, que por sua vez não teria conhecido a minha mãe e, assim, nem eu nem este post neste blog poderiam existir.

Como disse, sei que pode ser um pensamento meio besta. Mas que poderia ter sido assim poderia…

Sem querer entrar numa questão ainda mais existencial e espiritual, o que quero dizer é que nossa existência enquanto nós mesmos está fortemente marcada pelas nossas escolhas, mas também pelas escolhas dos nossos antepassados.

E essas escolhas são, em grande parte, socialmente determinadas. O meu bisavô não teria decidido ir para a Nigéria, nem para a Suécia ou para Jamaica. Por conta de condições históricas específicas, ele decidiu vir para o Brasil. E por conta de condições sociais específicas, ele e sua (e minha) família viveram muito próximos a outras famílias provenientes do mesmo país e da mesma província. Foi aí que ele conheceu a minha avó. (e, convenhamos, mesmo assim ainda poderia ter sido outra mulher)

Bom, esta história eu não sei direito, mas o que quero dizer é que fazer um documentário sobre a trajetória do meu avô (e aí uso o meu avô como representação do imigrante okinawano) é de alguma maneira contar a história do que me trouxe aqui enquanto o que sou.

Também tem outra coisa. Há algumas semanas atrás, o meu avozinho fez 90 anos. Isto quer dizer que ele nasceu em 1918, um ano depois da revolução russa, em meio à primeira guerra mundial – essas coisas que a gente lê nos livros de história. Mais do que isso, faz 90 anos que ele vive neste mundão. Vocês sabem o que são 90 anos? Vocês sabem quantas experiências podem ser vividas neste tempo? Quantos momentos especiais, tristes, difíceis ou serenos?

Eu, sinceramente, não sei. Talvez o meu avô possa me contar como tem sido pra ele todo esse tempo vivido e como Brasil e Okinawa fazem parte desta história.

Enfim, prometi que a epifania seria breve. Mas estou certo de que este documentário ainda nos proporcionará muitas outras.

Vida longa ao meu avozinho, à memória, ao documentário e à Okinawa do Brasil.

Victor Kanashiro

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