Arquivo da categoria ‘Reflexões’

Saindo do Armário pela Segunda Vez

Dezembro 24, 2009

Imaginem vocês que durante toda a vida eu fui o japonês, japa, japinha, jaspion, giraia, japoronga, china ou qualquer coisa do tipo. Ser uma minoria étnica não é exatamente algo que se deseja quando se é pré-adolescente. Descobrir-se secretamente o outro.
Não que isso seja algo que só aconteça com as minorias étnicas. Pra falar a verdade, numa pós-adolescência, e com alguns anos de terapia, acabei achando que somos todos minorias de uma pessoa.
É verdade que no Brasil ninguém duvida MUITO da minha brasileiridade. Mas é verdade também que isso me exigiu ter samba no pé e, de certo, modo renegar ao máximo a figura típica-ideal do japonês. O cara calado, concentrado, beirando o bobo, admirador e praticante das ciências exatas e de jogos eletrônicos.
O tempo e a vida trabalham de forma engraçada. Vir a Okinawa me tem ensinado como o imaginário pode ser pobre. Ser japonês é muito coisa ao mesmo tempo. Estou saindo do armário pela segunda vez.
Sair do armário muda tudo. É como mandar um foda-se para si próprio e para o mundo!
Mas, sem querer expor tanta psique, o fato é que, pela primeira vez, no auge dos meus 25 anos, experimentei a sensação de ser etnicamente um igual. Em Okinawa todo mundo é a minha cara ou eu sou a cara de todo mundo.
No mercado ninguém nem acredita que não sou daqui (será que sou?). Eu tenho a cara do Uchinanchu . Eu sou a cara de Okinawa. Eu sou um cara de Okinawa. E eu sou um cara do Brasil. Eu sou só eu.

Saiu no Okinawa Times: Victor Kanashiro chega a Okinawa

Dezembro 24, 2009

O sociólogo brasileiro Victor Kanashiro (25) chegou a Naha no último dia 16 de fevereiro em sua primeira visita à terra natal de seus avós. Descendente de quarta geração da vila de Oroku, hoje parte do município de Naha, Kanashiro san se encontrou com o prefeito da cidade Takeshi Onaga que lhe desejou boas vindas e falou um monte de coisas que ele não entendeu. O sociólogo ficará dois meses como estagiário da prefeitura e pretende estudar a história de Okinawa e de seus ancestrais, conhecer as políticas ambientais da província, além de, claro, beber muito Awamori (saquê de Okinawa). O sociólogo, que vem encontrando suas raízes perdidas, pretende ainda visitar Tóquio, Kyoto e o Monte Fuji.
Kanashiro san agradeceu a calorosa hospitalidade do povo okinawano e aproveita para mandar lembranças à Cecília e às crianças e um feliz natal e próspero ano novo para os amigos e familiares do Brasil.

A ida (ou a volta?) e a teoria do eterno retorno

Dezembro 17, 2009

No balcão de check-in da Japan Airlines, no Aeroporto de Guarulhos, começou o Japão.
O aeroporto é um portal para o estrangeiro. Lembro-me de, quando criança (será que já virei adulto?), gostar de ficar por lá só para ouvir o burburinho em outra língua. Deve ser algo similar ao que era um porto nos séculos passados. Com a diferença de que um porto tem a concretude de se ver o mar que se tem que atravessar.
Após a chatice burocrática (e anti-terrorista) da migração e embarque, entrei naquele avião em meio a turistas, dekasseguis, viajantes, odiisans , obaasans e pessoas indo a Nova York (o avião faz escala por lá). Uma viagem de mais de 24h é daquelas que você entra calado e sai com um monte de amigos do avião. É difícil ficar tanto tempo calado ainda mais pra uma pessoa falante como eu.
Fileira 50, poltrona C – O destino (ou a moça da empresa aérea) me colocaram do lado de duas figuras interessantes: dois rostos asiáticos, um senhor de meia e uma moça da minha idade.
No começo achei que eram japoneses do Japão (nesse caso já poderia ir praticando meu japonês). Mas quando começaram a falar em português percebi que se tratava de um pré-julgamento. Os dois deviam ser pai e filha indo visitar a família na China. Mas eu continuava errado.
O senhor Tang é nascido em Shanghai e vive há 10 anos no bairro da Liberdade, onde vende produtos eletrônicos. Nesta ocasião, ia (como faz anualmente) passar o fim de ano com a família na China. Já a Karina é (como eu) neta de japoneses, recém graduada em Ciências Sociais (!) na Universidade Estadual de Londrina e ia (ou voltava?) pela primeira vez à terrinha dos ancestrais.
A gente formou tipo uma pequena e breve família durante aquela longa viagem. O senhor Tang tinha um português difícil, quase um dialeto sino-tupiniquim (aquele em que rua vila lua), e estampava um sorriso brilhante, com seus olhos pequeninos (como os meus), mas com cílios quase inexistentes. Falou de como gostava do Brasil e como tinha saudades também de Shanghai, espantou-se ao saber que mesmo sendo japoneses, Karina e eu falávamos mal e porcamente o japonês. Contou coisas sobre a milenar civilização chinesa e revelou opiniões controversas (sobretudo para dois jovens cientistas sociais) como, por exemplo, a idéia de jogar os bandidos do mundo lá na Sibéria (isso quando o avião estava passando lá por cima. Caramba, a Sibéria existe fora do “War” e deu até pra ver um pouquim de longe lá de cima).
Já Karina é daquele tipo de pessoa surpreendente. Ia rumo à cidade japonesa de Toyota (sim acho que tem a ver com a gigante dos automóveis), acerca de Nagoya, visitar uma tia. Falante (até mais que eu), falamos de “A a Z”. Sobre histórias de avós até a condição do intelectual na sociedade contemporânea, sobre como o senhor Tang é simpático até a psiquê dos nikkeis do Brasil, sobre questões de gênero a pessoais (será que deu pra separar?).
Enfim, contando, inventando e reinventando histórias e pensamentos, descobrimos uma coisa engraçada. Nossos avós vieram no mesmo ano de 1932 do Japão para o Brasil, provavelmente no mesmo navio, o Santos Maru, que cruzou meio mundo em 30 dias. E agora nós, íamos (ou voltávamos?) para o Japão pela primeira vez no mesmo avião, atravessando a outra metade em 30 horas. Verdade ou não, só sei que foi assim.
Já em solo japonês (pensei que íamos chorar, mas a Karina ficou com dor no tímpano e eu fiquei um pouco enjoado) nos despedimos do Senhor Tang que ainda enfrentaria mais uma boa jornada até Shanghai.
Na confusão das malas já não soube onde estava Karina. Não pude nem dar um abraço de boa viagem. Mas tem coisas que acontecem assim mesmo. Tem passagens que a gente acaba tendo que viver sozinho.
Mas não me preocupo, lembrei que secretamente continuo acreditando na teoria do eterno retorno. Ah, Karina e Senhor Tang, esqueci de falar: achei no fundo da mochila aquele livro que achei ter perdido no avião.

Victor Kanashiro

VI Seminário do Centro de Memória da Unicamp

Agosto 16, 2009

A proposta “Projeto Documentário Okinawa do Brasil: memória, documentário e ciências sociais”, elaborada por Victor Kanashiro, foi aceita para o IV Seminário do Centro de Memória “Memória e Patrimônio”, a ser realizado de 14 a 16 de outubro de 2009 na Universidade Estadual de Campinas. O trabalho será apresentado no GT “4. – Memória, Imagens e Mídias”, coordenado por Fernando de Tacca (IA-UNICAMP) e Amarildo Carnicel (CMU-UNICAMP).
A programação do seminário está disponível em http://www.cmu.unicamp.br/viseminario/index.php

Okinawan Diaspora

Junho 18, 2009

Acabo de adquirir um livro muito interessante para quem estuda a história e cultura okinawana ou a temática da imigração, de modo mais amplo. Trata-se de “Okinawan Diaspora”, organizado pelo intelectual norte-americano Ronald Nakasone e publicado pela University of Hawaii Press em 2002. O livro traz a colaboração de vários cientistas sociais que apresentam suas pesquisas e reflexões sobre temas variados como a imigração do povo okinawano para as Filipinas, Micronésia, Havaí e América Latina.

Achei especialmente interessante a reflexão de Robert Arakaki sobre a teorização da imigração okinawana por meio do conceito de diáspora.

Em breve, devo postar um resumo das suas principais idéias sobre a questão.

Para quem quiser dar uma espiada no livro, algumas partes estão disponíveis para leitura no site do googlebooks.

http://books.google.com.br/books?id=KirIeYfhZukC&dq=okinawan+diaspora&printsec=frontcover&source=bl&ots=h0-7ysPfpi&sig=lRNl_Kf35IF6Jlxt2wCitqwfNRU&hl=pt-BR&ei=TpY5SuTrEMrQlAfo6a3vDQ&sa=X&oi=book_result&ct=result&resnum=2

Victor Kanashiro

Primeira Epifania!

Julho 24, 2008

Dia 23 de Julho. Depois das imagens e reflexões da nossa reunião, não pude esperar muito para inaugurar minha palavra neste blog.

É verdade que é a primeira vez que escrevo em um, mas é certo que será um instrumento de documentação e reflexão importante neste nosso processo. Por isso, começarei com uma breve epifania.

Fazer um documentário como este é, para mim, um processo de auto-conhecimento. Em primeiro lugar, porque acredito que nosso passado mora dentro de nós e nos possibilita e condiciona percorrer os caminhos que “escolhemos” percorrer. Em segundo, porque o nosso presente está fortemente marcado pelo que fizeram os nossos antepassados.

Sei que é um pensamento um pouco besta e um pouco já batido pela Teoria do Caos. Mas às vezes fico imaginando: e se meu bisavô e sua família (e isso já incluia o meu vô) tivessem decidido ir para a Jamaica em vez de para o Brasil?

Bom, se isto tivesse acontecido, meu avô não teria conhecido a minha avó e nem gerado o meu pai, que por sua vez não teria conhecido a minha mãe e, assim, nem eu nem este post neste blog poderiam existir.

Como disse, sei que pode ser um pensamento meio besta. Mas que poderia ter sido assim poderia…

Sem querer entrar numa questão ainda mais existencial e espiritual, o que quero dizer é que nossa existência enquanto nós mesmos está fortemente marcada pelas nossas escolhas, mas também pelas escolhas dos nossos antepassados.

E essas escolhas são, em grande parte, socialmente determinadas. O meu bisavô não teria decidido ir para a Nigéria, nem para a Suécia ou para Jamaica. Por conta de condições históricas específicas, ele decidiu vir para o Brasil. E por conta de condições sociais específicas, ele e sua (e minha) família viveram muito próximos a outras famílias provenientes do mesmo país e da mesma província. Foi aí que ele conheceu a minha avó. (e, convenhamos, mesmo assim ainda poderia ter sido outra mulher)

Bom, esta história eu não sei direito, mas o que quero dizer é que fazer um documentário sobre a trajetória do meu avô (e aí uso o meu avô como representação do imigrante okinawano) é de alguma maneira contar a história do que me trouxe aqui enquanto o que sou.

Também tem outra coisa. Há algumas semanas atrás, o meu avozinho fez 90 anos. Isto quer dizer que ele nasceu em 1918, um ano depois da revolução russa, em meio à primeira guerra mundial – essas coisas que a gente lê nos livros de história. Mais do que isso, faz 90 anos que ele vive neste mundão. Vocês sabem o que são 90 anos? Vocês sabem quantas experiências podem ser vividas neste tempo? Quantos momentos especiais, tristes, difíceis ou serenos?

Eu, sinceramente, não sei. Talvez o meu avô possa me contar como tem sido pra ele todo esse tempo vivido e como Brasil e Okinawa fazem parte desta história.

Enfim, prometi que a epifania seria breve. Mas estou certo de que este documentário ainda nos proporcionará muitas outras.

Vida longa ao meu avozinho, à memória, ao documentário e à Okinawa do Brasil.

Victor Kanashiro