Ilustração para o poster do filme
fevereiro 3, 2010 por okinawabrasilO primo do meu avô
fevereiro 2, 2010 por okinawabrasilDia desses encontrei o primo do meu avô, Kinjo san. A língua japonesa tem dessas coisas engraçadas. O kanji 金城 se lê Kanashiro no Brasil e Kinjo em Okinawa.
Por isso, apesar de o Kinjo San carregar o butsudan do meu tataravô (porque ele é primogênito do primoegênito da família do meu avô), a gente tem sobrenome diferente.
Enfim, o Kinjo San é a cara do meu avô. E bebe que nem esponja. Comemos um bom sushi e fomos ao karaokê.
Vendo a foto, minha mãe disse que ele não parece não o meu avô.
Talvez, de saudade, acabei vendo meu odi nele.
Já faz uns 6 meses, meu avô partiu.
Sobre a Batalha de Okinawa, a história de um povo, a banalização do mal e a insustentável busca pela paz numa base militar.
janeiro 27, 2010 por okinawabrasilQuando se está em Okinawa, mal se pode imaginar o que este povo, seus mares e cavernas viram acontecer por aqui. Digo povo, mares e cavernas, porque poucas construções sobraram para contar essa história.
A Batalha de Okinawa foi talvez a mais sangrenta em terra que se passou no eixo do pacífico durante a Segunda Guerra Mundial. No Brasil, pouco sabemos sobre ela. Segundo escrito nos livros do colégio e nas apostilas do cursinho, o Japão, também fortemente influenciado por uma política imperialista e fascista, foi aliado da Alemanha e da Itália durante a II Guerra.
Foi no mês de abril de 1945 que a já empobrecida ilha de Okinawa foi invadida pelos Estados Unidos da América.
Com sua superioridade militar as tropas americanas rapidamente causaram um grande estrago na pequena ilha e o já enfraquecido exército japonês teve que recuar para o sul de Okinawa.
Neste processo, a cidade foi praticamente inteira destruída. Como muitas casas por aqui eram feitas de madeira e palha, em pouco tempo, Okinawa se tornou um grande incêndio e a destruição em cidade. Durante a batalha, que durou pouco mais de dois meses, o exército japonês teve mais de 100.000 baixas, o americano mais de 12.000. Mas, claro, quem sofreu mais com essa história foram os civis. Mais de 150.000 okinawanos perderam suas vidas.
Com suas casas destruídas e com a guerra (literalmente) pegando fogo, os okinawanos que sobreviviam aos ataques americanos tinham que se refugiar nas cavernas da ilha ou nos túmulos (ohaka) típicos de Okinawa (ainda preciso escrever sobre o ohaka).
No entanto, com o agravamento da situação e com o abandono das tropas japonesas pelo próprio governo japonês, a população local passou a temer não só os americanos, mas também o exército japonês. Com a escassez de alimentos, os soldados japoneses não só roubavam a pouca comida que estes sobreviventes conseguiam, mas também obrigavam-lhes a cometer suicídios coletivos e coisas do tipo.
Não são poucas as histórias de pessoas que viram seus entes queridos morrerem de fome ou malária, ou mesmo os que tiveram que conviver (ou seria con-morrer) com os corpos em decomposição dentro destas cavernas.
No último fim de semana, fomos visitar o “Okinawa Prefectural Peace Memorial Museum” ( http://www.peace-museum.pref.okinawa.jp/english/index.html), na cidade de Itoman, dedicado à memória dos mortos na batalha.
É um lugar de tristeza e também de muita reflexão.
Lembrei-me imediatamente do Jüdisches Museum Berlin na Alemanha, dedicado ao povo judeu. Na saída deste museu, havia uma instalação de um artista plástico de quem não me lembro o nome em que caminhávamos num corredor amplo e escuro e tínhamos que pisar em mais de 1,2 milhões (mesmo número de judeus mortos na guerra) placas de metal em forma de rostos humanos em desespero. Nunca esqueci o som triste e obscuro que aquela caminhada fazia.
E o ouvi por dentro ao caminhar pelo parque do Okinawa Memorial. Não porque eram okinawanos os nomes ali escritos. Nem porque certamente alguns familiares se foram nestas condições. Eu, que sempre me sou tão okinawano em Okinawa, neste dia me vi judeu, alemão, árabe, japonês, brasileiro, vietnamita, americano, iraquiano, afegão. … enfim, um ser humano.
Na última seção deste memorial, há uma declaração do governo da província sobre como Okinawa, contando a história desta triste batalha, quer dizer ao mundo uma mensagem de paz.
É um texto bonito, desses que, mesmo não sendo Miss Universo, te fazem querer a paz mundial mais do que tudo.
Mas na recuperação da reflexão, passei a me perguntar quanto vale uma mensagem de paz num lugar que até hoje hospeda as principais bases militares americanas da Ásia.
Talvez, a banalização do mal que se passou por aqui e na Europa, como já disse Hannah Arendt sobre a modernidade, nunca tenha acabado. Talvez a Batalha de Okinawa nunca tenha acabado.
Pulando os mais de 25 anos de história em que Okinawa ficou sob administração americana e serviu de base para as Guerras da Coréia e do Vietnam, daqui de Okinawa, mesmo contra a vontade de muitos okinawanos, saem até hoje tropas americanas que rumam para o Afeganistão e para o Iraque. Sem contar os casos de estupro e violências decorrentes da presença militar por aqui.
De modo geral, o governo japonês e a parte da população local que crê que a as bases militares são essenciais para a economia okinawana apóiam a continuação das bases por aqui. Mas, para além da já trágica participação indireta de Okinawa nas guerras do oriente médio, me pergunto o que acontecerá por aqui se algum dia novamente cair uma bomba sobre esta terra. Penso que o cara lá da Coréia do Norte se um dia quiser de fato atacar o ocidente, jogaria uma bomba aqui em Okinawa. É pertim de lá e ele atacaria os Estados Unidos e o Japão de uma só vez.
O que têm os okinawanos a ver com essa história eu não sei, mas também não sei o que eles tinham a ver quando viveram (ou morreram) a Batalha de Okinawa.
Somos todos analfabetos
janeiro 24, 2010 por okinawabrasilDesde os meus 7 anos, venho me sentindo alfabetizado. Desde então li gibis do Chico Bento, placas de ônibus, manchete de jornal, besteiras, além da “Droga da Obediência”, “A Viagem de Sofia”, “O Alquimista”, poesias, contos, livro de ciências, Marx, Smith, Bourdieu, Florestan, Garcia Marques, Danislau Também, Dostoievski. Cheguei a ler Camus en français e Borges en español.
Mas no Japão, somos todos analfabetos.
Por aqui, lembrei-me de uma conversa que tive com a Lia (a sempre simpática faxineira lá da casa da minha mãe). Ela, que não sabe ler e escrever muito bem, me contou como é difícil depender dos outros pra pegar um ônibus do qual se sabe o nome, ler só as fotos do jornal e achar a livraria um lugar muito esquisito.
Eu, como a Lia, sou, por aqui, um analfabeto, e fico admirado como as pessoas podem compreender algo tão complexo como são as escritas.
A língua japonesa tem três alfabetos diferentes. O Hiragana (que é um alfabeto silábico), o katakana (que também é silábico, mas só é usado para palavras estrangeiras) e o Kanji (um alfabeto importado do chinês, no qual cada caracter ou suas combinações formam uma palavra). O kanji é um desenho de lógica bonita e complexa.
Nas ruas de Naha e na Junkundo, uma espécie de Livraria Cultura de Okinawa, sinto-me privado de todas as histórias, reflexões, haikais e besteiras escritas em japonês.
No restaurante, eu escolho a comida pela figura (quando tem).
No supermercado, não confundo refrigerante com detergente graças ao trabalho dos designers de embalagem.
Em japonês
木 é uma arvorinha
森 três arvorinhas são uma floresta
人 é uma pessoa
休 uma pessoa debaixo de uma arvorinha é descanso
Haja imaginação para aprender japonês. Lia, がんばてくださいね。
Tudo é uma questão de manter a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranqüilo
janeiro 16, 2010 por okinawabrasilConheci essa sábia canção de Walter Franco pelo meu querido irmão Clerinho que conheci no dia fora do tempo no Encontro das Águas, Chapada dos Veadeiros, Goiás. O ano acho que era 2004.
O fato é que eu nunca esqueci nada disso. E apesar de todos os momentos de desconcentração que vivi desde então, foram algumas as vezes que revivi esse versinho e essa descoberta.
Lembro-me de na cidade de Saillans, na França, ouvir de um português, o José (por onde andarás o José?), uma história de quando estava num mosteiro budista em alguma parte da Europa que já não lembro.
Ele contava como era o exercício da meditação na vida cotidiana e mais ou menos se tratava de se concentrar em cada gesto, não-gesto, vida e não-vida que estava ao seu redor. Talvez não fosse exatamente isso, mas foi isso que ficou pra mim.
Enfim, hoje me lembrei de Clerinho e José quando fui para o meu terceiro mergulho aqui em Okinawa.
A praia foi Maeda (前田) Cape, no Mar da China Oriental, um dia após o Eclipse Solar que se viu do Japão. Nesse lugar, há uma caverna que se pode ir de snorkel e lá fomos Nagamine San e eu para mais um mergulhim.
Foi num dia com quase sol e muito ventoso (parcialmente nublado como diz a moça do tempo) e o mar, diferente das outras vezes, esteve agitado. Na hora de entrar na caverna, tive medo. A água começa a entrar pelo buraco do snorkel, a respiração fica ofegante, dá vontade de pedir para descer. Mas aí me lembrei de José, Clerinho e Walter Franco e fui.
Quando se está no fundo do mar, só dá para ouvir mesmo a própria respiração. É engraçado como a gente tá sempre respirando, mas nem se dá conta. E controle da respiração é essencial no mergulho. E na vida, claro.
O escuro é um lugar esquisito. O desconhecido pode ser um lugar desesperador. Um lugar escuro e desconhecido dá medo.
Talvez nos lugares escuros e desconhecidos é que a gente tem mais que controlar a respiração, manter a mente quieta, a espinha ereta, o coração tranqüilo e observar os peixes. Os peixes são incríveis. Talvez fique tocando essa musiquinha dentro deles a vida toda.
Ficando Velho devagar e sempre
janeiro 13, 2010 por okinawabrasilO mundo é feito de muitos lugares feios e bonitos, muitas pessoas feias, bonitas, jovens ou velhas, muitas pessoas sempre envelhecendo, se tornando mais feias ou mais bonitas, ou as duas coisas ao mesmo tempo. E muitas coisas esquisitas. Os sonhos são cor de rosa. A realidade é cinza. Mas no cinza estão todas as coisas. Quanta gente querida passa numa vida…
Ficando gordim…
janeiro 11, 2010 por okinawabrasilDizem que a gente é o que a gente come. Nesse caso, por aqui eu sou sushi, sashimi, lamen (gigante), Okinawa Soba, Nabe, tofu, goyá tyanpuru, orelha de porco, cabeça de peixe, polvo, lula, muito gohan e mais um monte de coisa que eu não faço a menor idéia do que seja.
O fato é que parece que eu to sempre comendo por aqui. E eu adoro. A culinária okinawana é riquíssima.
Pra quem gosta de pescados, isso aqui é o paraíso.
O problema é que o Victor san tá ficando um balofinho. Aiai, semana que vem preciso dar um jeito de começar a correr.
正月, o primeiro dia do ano
janeiro 9, 2010 por okinawabrasilNo primeiro dia de 2010, já que dessa vez não teve bebedeira, acordei cedo e fui ver um teatrinho de como eram as celebrações de ano novo no Castelo Shuri, onde ficava o rei de Ryukyu na época em que o reino existia.
Na época as celebrações oficiais eram realizadas em chinês, o que mostra a submissão de Ryukyu perante o Império Chinês.
O castelo é bem interessante e acreditam ter sido construído no século XIV, mas muitas vezes reconstruído por conta de incêndios. Em 1945, durante a Batalha de Okinawa (quando os EUA invadiram o Japão na II Guerra), o Shurijo (como o chamam os okinawanos) foi bombardeado e quase completamente destruído. Aliás, a maior parte do patrimônio histórico de Ryukyu foi perdido na guerra. Tem uma história interessante sobre o sumiço da coroa real durante a invasão americana que eu postei no blog há um tempo atrás http://okinawabrasil.wordpress.com/2009/08/18/o-sumico-da-tama%e2%80%99n-chaabui-a-coroa-real-do-reino-de-ryukyu. A coroa da foto é réplica.
Enfim, Shurijo foi reconstruído em 1992 e, apesar de ser bem interessante, tem hoje aquela energia dos lugares turísticos demais.
À noite, fui jantar na casa dos pais do Nagamine San. E se o Nagamine San é um anjo da guarda, imaginem o que é o pai dele. Uma figura de energia espetacular, bom de Awamori, e cheio de histórias (em japonês) para contar. Fui, como sempre, muito bem recebido e me dei conta de como os filhos dizem muito do que são os pais.
Os pais do Nagamine San são dois bonsairistas dos melhores. Tinha um bonsai de pé de poncan incrível, com mini frutas e tudo. E no lindo jardim da casa tem também uma horta, que ao contrário da minha que está sempre cheia de mato, é muito bem cuidada.
Nesse dia, me lembrei de como era bom o 正月 no Brasil quando eu era pequeno. É costume okinawano que neste dia, as mulheres fiquem em casa e os homens visitem as casas de amigos e parentes. Mas a melhor parte é que é também costume okinawano (até hoje) as crianças receberem um dinheirinho dos parentes nessas visitas. Resultado, todo dia 1 de janeiro, minhas irmãs voltam P da vida porque ficavam o dia inteiro servindo chá e tofu frito na casa da minha vó e eu voltava com a carteira cheia. Pena que eu deixava tudo guardado debaixo do colchão e no dia em que finalmente (eu era muito mão de vaca) decidia comprar algo, descobria que aquele dinheirão todo já não valia mais nada por conta da inflação. Eita inflação danada…
Nesse dia, pensei também muito no meu avô pai da minha mãe. O Sr. Keiichi Uehara (também conhecido como Sr. CasoRaro) era também muito bom de awamori e também tinha muita história para contar. E aí fiquei meio triste porque, como ele faleceu quando eu ainda era muito jovem, nunca tive a chance de beber uma com ele. Mas assim é a vida né. Fazer o que…
Ano novo Zen
janeiro 6, 2010 por okinawabrasilPra quem passou comigo a virada 2008/2009 em Buenos Aires não vai acreditar como foi este último.
Virei o ano tocando um sino gigante num templo budista em Naminoue (a praia de Naha). O pensamento é de que as coisas ruins fiquem no ano que passou e que o ano próximo venha cheio de coisas boas.
Depois disso fomos ao templo xintoísta ao lado. A questão religiosa aqui também pode bem sincrética e me fez lembrar lá de casa, em que a Nossa Senhora fica do lado do hinokan (um mini altar da religião de Okinawa) e a gente vai mesmo é no centro espírita. O importante é que alguém vai me salvar do inferno né.
Enfim, nesse templo xintoísta me senti num desenho do Hayao Miyawaki (aquele da “Viagem de Chihiro) e o ritual é lavar as mãos com essa aguinha, fazer uma oração para os deuses (?) xintoístas, pendurar o desejo escrito numa madeirinha (será que os deuses xintoístas entendem português?), tirar o destino pelo simbólico preço de 100 yens (+ou-2 reais) e pendurá-lo lá no templo.
O meu dizia que 2010 será um ano ótimo. E no destino eu confio viu.































